ALMEIDA & DALE

No início da década de 1920, Paris não era mais apenas a capital da vanguarda. A cidade havia se tornado um espaço de circulação onde artistas, escritores, arquitetos, músicos, colecionadores, editores, obras e ideias de diferentes origens se encontravam. Museus, galerias, ateliês e livrarias faziam parte do mesmo movimento: o de um mundo que começava a olhar além da Europa para inventar novas formas de criação. Foi nesse contexto que Tarsila do Amaral se estabeleceu em Paris. Sua trajetória a levou a André Lhote, Albert Gleizes e Fernand Léger, enquanto frequentava um ambiente em que também circulavam as obras de Sonia e Robert Delaunay, Constantin Brancu?i e Paul Klee. Ao redor desse grupo, artistas de todas as Américas, poetas, críticos e novas publicações dedicadas a culturas não europeias fomentaram uma troca intelectual sem precedentes. Todos eles, cada um à sua maneira, buscavam uma nova forma de representar um mundo cujas fronteiras culturais pareciam, de repente, se expandir. Entre as personalidades que teriam impactado decisivamente esse período estava o poeta Blaise Cendrars, com quem Tarsila formou uma profunda amizade e manteve um diálogo intelectual desde sua primeira estadia em Paris. Em 1926, Cendrars escreveu o texto que acompanhava o catálogo de sua primeira exposição individual na Galerie Percier, enquanto Tarsila produziu as ilustrações para seu livro Feuilles de Route. Em 1924, após os primeiros anos de formação artística de Tarsila em Paris, Cendrars foi para o Brasil. Na companhia de Tarsila e de outros membros do círculo modernista, ele viajou pelas cidades históricas de Minas Gerais durante as celebrações da Semana Santa. Esse itinerário tornou-se um verdadeiro laboratório intelectual. A arquitetura colonial, a escultura de Aleijadinho, a religiosidade popular, a paisagem montanhosa e a cultura do interior do Brasil foram então percebidas como fontes de uma língua moderna autenticamente brasileira. Essa experiência foi decisiva tanto para a formulação da estética Pau-Brasil quanto para o conjunto de obras que Tarsila apresentaria dois anos depois em sua primeira exposição em Paris.

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